domingo, 28 de setembro de 2008

um dia, talvez emigre para a Índia

“Na Índia, milhares de fiéis reúnem-se, todos os dias, num templo consagrado à glorificação da imprensa, inclinando-se respeitosamente diante de uma grande pilha de jornais. As criticas que denunciam a falta de credibilidade dos meios de comunicação social não atingiram o seu credo. Aqui, a imprensa – toda a imprensa – tem um estatuto divino. «Veneramos todos os jornais», explicou o sacerdote do tempo, Balarma Markham, ao Hindustan Times. «Os jornais abrem os olhos, permitem tomar consciência dos problemas deste mundo, denunciando os males e os crimes da nossa sociedade. Inculcam valores humanos e impedem as pessoas de praticarem o mal»”.
in Courrier Internacional, Outubro 2008
Mundo de extremos: nuns sítios os jornais são tão desprezados, noutros são tão venerados. Um dia, talvez emigre para a Índia. Ou não. Afinal, nunca ambicionei ser deus de coisa nenhuma.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Não há coincidências

No mesmo dia em que Portugal deu mais um passo para ficar com um sistema de ensino similar ao da Finlândia, acontece isto... na Finlândia.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Paralímpicos - o final

Terminaram ontem os Jogos Paralímpicos de Pequim.
Importa, por isso, lembrar os heróis nacionais, os vencedores colectivos e a figura individual da prova
Os heróis nacionais: Um ouro, quatro pratas, dois bronzes. João Paulo Fernandes (Ouro, boccia individual BC1), António Marques (Prata. boccia individual BC1), João Paulo Fernandes, António Marques, Fernando Ferreira e Cristina Gonçales (Prata, boccia equipas mistas BC1-2), Armando Costa, Mário Peixoto e Eunice Raimundo (Bronze, boccia equipas mistas BC3), Fernando Ferreira e Bruno Valentim (Prata, boccia pares BC4), João Martins (Bronze, natação 50 metros costas S1) e Luis Gonçalves (Atletismo, 400 metros T12). Por muito que a participação nacional tenha desiludido - e desiludiu - importa louvá-los. Não porque são "coitadinhos", mas porque trazem glória e medalhas para Portugal quando apenas recebem uma ínfima parte dos apoios dados aos Olímpicos. A sua vitória também é essa: dar muito, em troca do pouco que recebem.
Também é certo que a prestação lusa ficou aquém das expectativas - e das 12 medalhas de Atenas. Acima de tudo, falhou o atletismo, até há pouco a modalidade raínha dos paralímpicos portugueses, junto com o boccia. Mas, antes de criticá-los - até porque ninguém inventou desculpas ridiculas.... talvez porque também não foram alvos de uma imensa atenção mediática... - deve-se pensar onde poderiam chegar se tivessem onde apoios devidos.
Talvez tenhamos a resposta em Londres 2012.

Os vencedores colectivos: a China. A fórmula já tinha dado frutos nos Olímpicos e repetiu-se nos Paralímpicos. Um investimento avultado e a formação, desde pequeninos, de muitos atletas, catapultou os chineses para o topo do medalheiro paralímpico. Se nos Olímpicos a já vitória tinha sido em larga escala, mas apenas nas medalhas de ouro (no total, os EUA levaram a melhor: 112 contra 110); já nos Paralímpicos o triunfo foi completamente avassalador: 89 medalhas de ouro e 211 no total. Ou seja, mais do dobro do segundo classificado, o Reino Unido (com 42 ouros e 102 medalhas) e ainda mais à frente do grande rival político-económico-desportivo, os EUA. Os estado-unidenses apenas foram terceiros (com 36 medalhas douradas e um total de 99 metais...).

A figura individual: Oscar Pistorius. O velocista sul-africano que tentou participar nos Jogos Olimpicos (JO) -sem sucesso - foi o protagonista principal dos Jogos Paralímpicos. Um mês depois de Usain Bolt, foi ele a brilhar no Estádio do Ninho de Pássaro, ganhando o ouro dos 100, 200 e 400 metros na sua categoria. Recorde-se que Pistorius se tornou célebre devido a sua luta judicial para participar nos JO. A federação internacional de atletismo queria vedar-lhe a participação porque as próteses de aço (que usa em ambas as pernas) poderiam ser... uma vantagem em relação aos adversários. O recurso à justiça desportiva deu-lhe razão, mas acabou por não conseguir os tempos de qualificação. Vingou-se nos Paralímpicos... e agora promete voltar em Londres... novamente de olho nos JO.

o músico do diospiro

Ao contrário do que possa parecer, este indivíduo não está apenas a tentar ouvir os batimentos cardíacos de uma torneira. O senhor do chapéu esquisito não é louco. Na verdade, trata-se de um artista que, na foto, está a trabalhar numa performance musical.
João Ricardo de Barros Oliveira é músico-escultor sonoro. Recolhe lixo e, com ele, explora sons. É para isso que este homem se levanta todos os dias: para remexer em caixotes do lixo e ouvir ruídos até à exaustão. Diz que não gosta mais de uns sons que outros, apenas quer descobrir mais e mais sonoridades diferentes.
O indivíduo do chapéu esquisito não é louco, mas tem qualquer coisa de louco. É uma figura caricata, desde a forma como se veste à forma como fala.
Conheci João Oliveira ainda há pouco, através de um documentário sobre o seu trabalho. Acontece que, desse documentário ("Lapsus Sonorus", de Luís Margalhau), não é o trabalho do músico-escultor sonoro que fica na memória, mas sim a personagem João Oliveira. De repente, dei comigo a rir-me com um filme que era suposto ser informação e não comédia.
Destaco três momentos, através das palavras do próprio João Oliveira:

- “O meu sonho é tocar com 50 aspiradores na orquestra sinfónica de Berlim” (este até é relativamente normal, tendo em conta a profissão do senhor)

- “Um dia esqueci-me da minha namorada num caixote do lixo”.
Como? João Oliveira estava a passear com a companheira quando, a meio de uma “conversa de namorados”, viu um caixote do lixo que o deixou louco. Correu para lá. Observou, remexeu, explorou. Não sei durante quanto tempo é que esteve alheado do mundo, mas João Oliveira conta que a certa altura desceu à terra e pensou “espera lá, eu estava acompanhado”. Entretanto, a namorada (naturalmente) já tinha desaparecido.

- “A minha inspiração vem também muito do dióspiro. Gosto muito de dióspiros”.
Esta é a minha preferida. João Oliveira é um homem que usa um chapéu estranho, recolhe lixo, passa o dia enfiado numa cacofonia tremenda à procura de qualquer coisa que faça sentido e, para conjugar o som de parafusos e aspiradores, inspira-se em… dióspiros. E diz isto com a maior calma e seriedade do mundo, como se houvesse uma relação óbvia entre o dióspiro e uma sinfonia de torneiras a chiar. Eu – apesar de até achar piada ao trabalho desenvolvido por João Oliveira – não pude conter o riso.

Em suma: não sei onde se vende (ou sequer se está à venda em algum lado) o documentário “Lapsus Sonorus”. Mas, se tiverem oportunidade, dêem uma espreitadela, quanto mais não seja pelo caricato da coisa. Há por aí gente muito estranha. E há gente estranha que até faz umas coisas engraçadas. Aqui, podem conhecer a personagem João Oliveira e alguns dos seus projectos.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

o taxista

O jovem repórter ligou para o serviço Rádio Táxis e pediu um serviço especial para o Estádio. O táxi chegou prontamente. "Boa tarde. É para o Estádio, por favor", pediu educadamente. O taxista, de careca premente, raosto balofo e corpo anafado, contraiu os músculos da face. "Ai que caralho, se soubesse que era para ir para a confusão não tinha aceite o serviço, que merda, foda-se". De gestos rudes mas macilentos, prosseguiu a retórica. O jovem repórter ignorou-o com uma frase: "pois, lamento. Eu é que não tenho culpa disso". E manteve a mesmo desprezo benovolente enquanto ouvia o 'xófer' grunho, discorrer "os lampiões filhos da puta vão perder amanhã", "aquela ali está velha mas bem conservada, ainda a deixava entrar se fizesse um bóbó".
Chegaram à rua perpendicular ao Estádio. "Sugiro que saia aqui, para não perder mais tempo nem apanhar mais trânsito". O jovem repórter anuiu: "sim, mas pode ser mais à frente". "São cinco e noventa e cinco. Mas pode arredondar para sete ou oito e dizer lá no jornal que apanhou trânsito", sugeriu o motorista avesso a trânsito. "Com certeza que arredondo. Aqui está: seis euros". "Boa tarde" - saiu, bateu com a porta, e sorriu no misto de compaixão e benevolência dos cinco cêntimos de gorjeta.

Rua Sésamo, eu quero ir


Espectáculos
Rua Sésamo ao Vivo - Espectáculo Infantil
21 a 23 de Novembro

Ninguém resiste à Rua Sésamo, incluindo os actores e músicos que participam com as suas vozes na versão portuguesa, um elenco de luxo composto por Sérgio Godinho, Nuno Lopes, Henrique Feist, Susana Félix, JP Simões, Tânia Ribas de Oliveira, Paula Oliveira, Filipa Pais, João Nuno Martins e Ricardo Spínola. A tradução e adaptação do texto original ficaram a cargo de Tiago Torres da Silva, assim como a direcção de actores nas dobragens. Paula Oliveira é a directora musical.
in Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz

Serei a única a achar que o público-alvo do espectáculo da Rua Sésamo não são as crianças? Os miúdos de hoje não gostam da Rua Sésamo; gostam do Rucca, do Noddy e do Bob, o Construtor. Quando muito, simpatizam com o Abre-te Sésamo, o programa que a RTP2 exibe de manhã e onde entram os saudosos Egas, Becas e Monstro das Bolachas. Mas o Abre-te Sésamo está muito longe daquilo que era a Rua Sésamo. Falta o Poupas Amarelo. Faltam as personagens de carne e osso, que se misturavam com a bonecada. Falta o Gualter. Falta o coro de crianças a cantar "vem brincar, traz um amigo teu", no genérico. Falta aquela simplicidade tosca de uma televisão ainda bebé.
Os verdadeiros fãs da Rua Sésamo têm agora vinte e poucos anos. E eu faço parte do grupo, obviamente. Aprendi as primeiras letras com a Rua Sésamo; comi muitos pães com tuli-creme enquanto via o Poupas à conversa com a Alexandra Lencastre; não perdia um episódio e sabia aquelas estórias todas de cor. Agora, tenho razões para entrar em delírio: ícones do presente (ícones no verdadeiro sentido do termo, não confundir com o reality show online de que se fala por aí), como JP Simões, Sérgio Godinho e Nuno Lopes, vão dar voz a uma das minhas mais doces recordações de infância.
Eu quero, mesmo, ir ver o espectáculo ao CAE. Serei a única adulta a ter este desejo? Será que posso levar um pão com tuli-creme, para me sentir de novo com cinco anos?


domingo, 14 de setembro de 2008

Depressão pós-férias inexistentes

A época balnear acaba amanhã e eu descobri hoje que já tenho saudades da praia que quase não tive. Vou continuar a ter o mar a cinco minutos de distância, é certo. Vou continuar a passear pela praia, com certeza. Mas, a partir do Outono, o areal deixa fugir a (por vezes excessiva) alegria que o povoa na época balnear e torna-se num local nostálgico, propício a reflexões mais ou menos pertinentes e a buscas no baú das memórias.
Acabaram-se as longas conversas estendidas numa toalha soalheira, os passeios à beira-mar com os pés debaixo do oceano, os mergulhos na espécie de arca frigorífica que é o Atlântico. Acabaram-se as esplanadas alimentadas a tremoços, pevides e caju, e regadas a finos. Acabaram-se os gelados à beira mar. Os “avecs” foram-se embora das praias do concelho da Figueira da Foz e aposto que os “tios” de Cascais também já deixaram S. Martinho do Porto.
E eu, que já deixei de fazer praia de biquíni e protector solar há um mês, dava tudo para fugir a esta melancolia que me assola e refugiar-me num qualquer paraíso tropical, para desfrutar das férias que não tive (e não vou ter), na companhia que me faz falta.

há programas de televisão fantásticos, não há?

Alguém me consegue explicar em que medida é que o momento que se segue - desde o guarda-roupa da apresentadora, à letra, melodia e coreografia da música - se insere num programa infantil?





Alguém me sabe explicar em que medida é que afirmar publicamente que se pagou para ter sexo "porque era um dia de festa e era para festejar um coisa" é razão para ganhar dinheiro? E, pior, que interesse é que tamanha revelação tem para os milhões de telespectadores que assistem à confissão do outro lado do ecrã?




Pois, logo vi que eram perguntas demasiado complexas para o leitor me responder.

sábado, 13 de setembro de 2008

Quando se assiste à cerimónia religiosa de um casamento

e lá se fala de "união de carnes", "inter-penetração" e "posição do carrinho de mão"* é porque algo está a mudar na igreja católica.

* ok, na verdade não se fala desta última, mas não deixava de ser engraçado.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

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O homem do dia:



A frase a estampar nas t-shirts do futuro:
"Vayanse al carajo yankees de mierda, que aquí hay un pueblo digno"

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O horror é o mesmo, só mudam os algozes

11 Setembro 2001. O horror: Al Qaeda sequestra aviões, destrói completamente o World Trade Center (Nova Iorque) e parcialmente o Pentágono (Washington) e mata quase três mil pessoas. Os algozes: a Al Qaeda e os fundamentalistas islâmicos.

11 Setembro 1973. O horror: Salvador Allende, chefe de Estado chileno, democráticamente eleito, é brutalmente assassinado na sequência de um golpe encabeçado pelo carniceiro Augusto Pinochet - que haveria de fazer milhares de vítimas durante as quase duas décadas em que governou o Chile com "mão de ferro". Os algozes: Pinochet e os EUA, que apoiaram o golpe.

11 Setembro 1942. O horror: Bento Gonçalves, operário, activista e dirigente sindical, morre no campo de concentração do Tarrafal, para onde fora enviado por ser opositor do regime ditatorial de António de Oliveira Salazar. Os algozes: Salazar e o seu regime pidesco - embora a PIDE só viesse a ser criada em 1945.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

(António) Marinho (e) Pinto

O actual Bastonário da Ordem dos Advogados tem uma relação algo estranha com o seu nome próprio. Não é nada que tenha descoberto só agora mas, esta amanhã, ao vê-lo no programa “Fátima”, lembrei-me desta velha questão. O que se passa é o seguinte:

1. Eu tive um professor de Direito da Comunicação chamado António Marinho Pinto. Esse professor era também advogado e jornalista. Contudo, enquanto jornalista, o meu professor respondia apenas por António Marinho.
2. A certa altura, surgiu a dúvida: o nome correcto do professor, advogado e jornalista seria António Marinho Pinto ou António Marinho e Pinto? A dúvida nunca foi esclarecida e deve continuar a atormentar alguns jornalistas. É que, quando o meu professor foi eleito Bastonário, houve jornais que lhe chamaram Marinho Pinto e outros que preferiram a designação Marinho e Pinto.
3. Em 2007, o meu professor colaborou com a revista Via Latina (cuja direcção eu integrava). Surpresa: o texto vinha assinado por um tal de A. Marinho e Pinto, advogado e ex-Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados.
4. Hoje, Fátima Lopes anunciou a entrada do (pelos vistos, habitual) comentador do programa, António Marinho.

Afinal, em que é que ficamos? Será uma espécie de nome artístico, uma forma de ele próprio distinguir os cargos que ocupa? Nesse caso será algo do género:
- António Marinho Pinto, o professor que recorre sempre ao exemplo "a SMF furtou um queijo"* e, para alguns jornalistas, Bastonário
- António Marinho e Pinto, o advogado e, para outros jornalistas, Bastonário
- António Marinho, o jornalista e estrela do horário da manhã da televisão portuguesa
- A.Marinho e Pinto, o ex-Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados que, gentilmente, colabora com as revistas da estudantada


* Explicação para quem não viveu a experiência de ter uma ou duas aulas com Marinho Pinto: na maioria das vezes em que o meu professor queria explicar a aplicação prática de uma qualquer lei, recorria ao exemplo (fictício) da pessoa X (nome de um dos elementos da turma), que, na véspera daquela aula, tinha furtado um queijo.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Paralímpicos III

Numa atitude um pouco pedante, SMF veio para aqui colocar vídeos e ensinar regras do boccia, como que colocando um "muito incompleto" (um sinal de "certo", com vários tracinhos) sobre o meu último post.
Muito me aprouveria responder-lhe, mas não vou fazê-lo.
Vou apenas lembrar-lhe que este blog é originário de Portugal, e aqui Beijing se escreve Pequim.

E agora vou calar-me, porque hoje o importante é isto.

Bem hajam, João Paulo Fernandes e António Marques.

ps: humildemente tenho de admitir que só não expus aqui o vídeo nem as regrar do boccia devido a um dos sete pecados mortais: a preguiça. Mas isso não muda o que disse acima: embora não pareça, SMF também é preguiçosa.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Paralímpicos II

RMS sugeriu aos dois leitores do beethoven-de-chocolate que pesquisassem no site que tem todos os vídeos do mundo (e um ou outro de Marte) pelo momento do acender da pira olímpica. Ora, como não queremos aborrecer o leitor com pesquisas que se podem revelar demoradas, hoje colocamos aqui o vídeo. Veja e diga de sua justiça.



RMS insinuava também desconhecer as regras do Boccia. Parece-me que estou em condições de as explicar. Não, caro leitor, os papéis não se inverteram: o especialista em desporto aqui do estaminé continua a ser RMS; a ignorante em tudo o que envolve esforço físico continuo a ser eu. Contudo, sou curiosa e, já antes de RMS ter lançado a questão aqui no beethoven, me tinha informado sobre as especificidades do Boccia. Afinal, até é fácil: os atletas - que têm todos paralisia cerebral ou doenças neuro-musculares e estão em cadeiras de rodas - atiram uma bola branca para o chão. Depois, atiram outras bolas vermelhas, de pele, que têm de ficar o mais próximo possivel do alvo (a bola branca). Ganha mais pontos quem conseguir colocar mais bolas vermelhas perto da branca. O Boccia pode ser praticado individualmente, a pares, ou em equipas de três elementos.

Resta-me acrescentar que, nos jogos de Atenas, em 2004, Portugal ganhou seis medalhas no Boccia. Seis, caro leitor. Num só ano, numa só modalidade. Parece que os atletas paralímpicos preferem concentrar-se realmente na modalidade em que participam, em vez de lutar pela medalha de melhor desculpa (lembram-se?)

Este ano, os atletas de boccia continuam no bom caminho: João Paulo Fernandes, António Marques e Mário Peixoto já garantiram a presença nas meias-finais.

Os autores do Beethoven-de-chocolate gostam de pensar que são lidos em todo o mundo e, por isso, deixam aqui uma mensagem de boa sorte para estes três atletas do Boccia e para todos os outros paralímpicos portugueses.

Toda a actualidade sobre os Paralímpicos passará por aqui, nos próximos dias, com quem sabe do assunto. Não me vou intrometer mais em temáticas alheias, mas estou certa que RMS se vai empenhar em contar ao leitor tudo o que se passa em Beijing.

domingo, 7 de setembro de 2008

Paralímpicos

Regressando ao tom sério a que este blog (não) habituou os seus leitores, hoje vai-se falar dos Jogos Paralímpicos, que ontem se iniciaram em Pequim.
Mais do que pedir encarecidamente que alguém me explique as regras do Boccia (e, já agora, do Curling, aquele desporto em que andam a esfregar o gelo... pois é uma aprendizagem que já fica para os próximos Jogos Olímpicos de Inverno), este post serve para revelar que o Beethoven-de-Chocolate - na minha pessoa - pretende fazer uma cobertura atenta deste evento tantas vezes descriminado em prole dos Jogos ditos-normais.

Como tal, pretendo mandar as mesmas larachas sobre os Paralímpicos que mandei sobre os Olímpicos, começando já pela cerimónia de abertura. Aí, recomendo que todos vão ao You Tube procura o momento do acender da pira olímpica. É simplesmente impressionante e majestoso. Nele vê-se um campeão chinês [cujo nome não é referido no DN e Público de hoje], amputado de um perna, ser içado em cadeira de rodas e subir, apenas com a força manual, até à pira olímpica, onde fez brilhar a chama do maior espectáculo desportivo pela afirmação da diferença.

A cobertura paralímpica segue dentro de momentos.

PS1. A exemplo dos "fraudes" da cerimónia de abertura dos Olímpicos, o que será que os chineses falsearam na dos paralímpicos. Será que amputaram alguns dissidentes bonitinhos, de propósito. só para abrilhantar a festa?

PS2. Não posso deixar passar a data em claro. Faz hoje 40 anos que Salazar foi operado à cabeça após a sua queda da cadeira. É uma efeméride que merece ser celebrada, pois foi a 7 de Setembro de 1968 que o País se apercebeu, enfim, da falibilidade do "Botas".
Curiosidade: sabiam que o DN ajudou a deitar abaixo o ditador? É verdade. Salazar estava a ler o Diário de Notícias, quando, distraído, se deixou cair na cadeira de lona, que, heróicamente, se desfez ante o peso do primeiro serial-killer de Santa Comba.

sábado, 6 de setembro de 2008

Eu, pecador, me confesso: a culpa é do Tarantino

Hoje, quando me aprestava a apanhar o sempre fiável comboio InterCidades Porto Campanhã-Coimbra não resisti a comprar o Diário de Notícias e o Correio da Manhã, essa dupla de jornais que foram, em tempos, ying e o yang da imprensa portuguesa.
Se comprei o DN por gosto pessoal e “amor à camisola”, a compra o CM teve motivos bem mais terra-a-terra: a oferta do DVD do fabuloso Kill Bill 1, de Quentin Tarantino.

Mas foi essa mesma compra que me possibilitou conhecer essa publicação excepcional, a todos os níveis, que é a revista Vidas.
Para quem não sabe (e vive na feliz ignorância), eu passo a explicar: a Vidas é uma revista que sai aos sábados com o jornal Correio da Manhã. E, embora não assuma o seu cariz humorístico, em dias bons conseguirá, com certeza, sacar tantas gargalhadas quanto o Inimigo Público (o jornal de humor que traz, às sextas, como suplemento, o Público).

Mas, de que é feita a Vidas? Generalizando, é uma revista de fofocas, de cabeçalho cor-de-rosa. No seu interior tem ‘cusquices’ sobre a vida de famosos e até um interessante “consultório sexual”. Portanto, conteúdos de fazer inveja à revista Maria.

Contudo, após uma leitura atenta, a Vidas consegue marcar a diferença. Para vê-lo, bastaria atentar em rubricas como “feng shui”, “sexo virtual”, “Maya responde”, “éfe-érre-á” ou “no ginásio com…” (a minha preferida). Mas como não reparar no espaço “Você decide”, onde os leitores podem opinar, respondendo “sim” ou “não” às questões “A alegada separação de Rita [Pereira] e Angélico é marketing?” e “Angelina Jolie enfrenta depressão pós-parto?”. Será que ainda ninguém percebeu que é para coisas como estas que a democracia é um bem inalienável?

Porém, meus amigos, guardei o melhor para o fim.
Até aqui, a Vidas revelara-se uma revista cor-de-rosa, de pendor marcadamente feminino. Mas o que dizer das páginas em que uma personalidade feminina, de curvas assinaláveis, é fotografada em trajes menores? Nesta edição, a “cantora” Vânia, das Delirium, surge numa lingerie sexy, sobre uma mesa de bilhar, segurando o taco, como que dizendo “caro leitor-homem da Vidas, este espaço é para si”. Em suma, a Vidas não só é uma revista de casa de banho, como ainda faz um apelo descarado a que uma pessoa se "toque no banho" [ndr: masturbação]. Não será altura da igreja católica tomar medidas?

Maldito sejas, Quentin Tarantino!

PS. Deus decidiu castigar-me, com certeza por ter comprado o CM. Hoje poderia ter ganho um prémio no totobola não fosse Ele ter feito o milagre de Cluj: Roménia-0-3-Lituânia.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Sra. Saudade

M. lutava todos os dias contra as garras do passado. Esperneava, gritava, tentava escapar às recordações que a prendiam e não a deixavam seguir para o futuro. Em vão. A Sra. Saudade era mais forte que ela. M. era franzina, enquanto a Sr. Saudade apresentava a forma física de quem faz trinta e nove piscinas de mariposa logo pela manhã. Mas o poder da Sra. Saudade estava, sobretudo, na sua força psicológica. Ela sabia como deixar M. quedada, incapaz de apreciar o presente e disposta a odiar o futuro estupidamente vazio de sentido que estava para vir. Sem avisar, a Sra. Saudade atirava lembranças felizes contra M., que não tinha tempo de se desviar. Às vezes, M. sofria autênticos bombardeios de memórias. E as feridas acumulavam-se, tornando o já frágil corpo de M. cada vez mais vulnerável. As dores eram lancinantes, no entanto M. não chorava. Não porque conseguisse resistir à tentação, mas porque o seu saco lacrimal há muito tinha secado para sempre.
M. lembra ainda todos os pormenores do dia em que deixou de ser avassaladoramente feliz. Na altura, sentou-se no chão do corredor e chorou (tudo), abraçada aos caixotes das recordações. Foi a partir dessa data (parece ontem e afinal já foi há tanto tempo, reflecte M.) que a Sra. Saudade começou a infiltrar-se em todos os seus sonos, distracções, devaneios e pensamentos vagos, transformando tudo num sonho infinitamente triste.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

| interlúdio |

Era um homem esguio. Gostava de música clássica, lia Dostoievski, comia brioches. Naquele dia ouviu a canção da canção da lua. "A vida é esta merda, dela só o cheiro se herda, trocamos os sonhos por qualquer porcaria". Não podia deixar de pensar na certeza da letra. Mas as palavras já lhe saiam em soluções vulcânicos: "Hoje a perdição será a busca da eternidade. Partamos, sem razão aparente, rumo ao desconhecido. Aqui nada se aprende. Do restolho humano nada sobra senão sangue, sémen, suor e corpos putrefactos. Já nós seremos eternos".

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

e a fome aqui tão perto

sete milhões de ucranianos morreram à fome nos anos trinta e dois e trinta e três do século vinte, e a ekaterina sentava-se à sua mesa como aterrorizada com a falta de sopa por um dia que fosse. para si, a fome era algo que a observava de perto, como se estivesse à espera de uma distracção sua para a abater. a grande fome ucraniana sentava-se todos os dias à mesa da ekaterina e do sasha, que ficavam a gerir as sopas, mesmo as mais fartas, com o compromisso de quem, mais tarde ou mais cedo, não teria o que comer. era o século XX todo em cima das suas cabeças. os sete milhões de mortos à fome, os sete milhões de mortos na segunda guerra mundial, e os mortos mais os afectados pela catástrofe de chernobil. na cozinha dos shevchenko sentavam-se mais de catorze milhões de mortos a olhar para o prato da sopa.

valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores