quinta-feira, 18 de setembro de 2008

o músico do diospiro

Ao contrário do que possa parecer, este indivíduo não está apenas a tentar ouvir os batimentos cardíacos de uma torneira. O senhor do chapéu esquisito não é louco. Na verdade, trata-se de um artista que, na foto, está a trabalhar numa performance musical.
João Ricardo de Barros Oliveira é músico-escultor sonoro. Recolhe lixo e, com ele, explora sons. É para isso que este homem se levanta todos os dias: para remexer em caixotes do lixo e ouvir ruídos até à exaustão. Diz que não gosta mais de uns sons que outros, apenas quer descobrir mais e mais sonoridades diferentes.
O indivíduo do chapéu esquisito não é louco, mas tem qualquer coisa de louco. É uma figura caricata, desde a forma como se veste à forma como fala.
Conheci João Oliveira ainda há pouco, através de um documentário sobre o seu trabalho. Acontece que, desse documentário ("Lapsus Sonorus", de Luís Margalhau), não é o trabalho do músico-escultor sonoro que fica na memória, mas sim a personagem João Oliveira. De repente, dei comigo a rir-me com um filme que era suposto ser informação e não comédia.
Destaco três momentos, através das palavras do próprio João Oliveira:

- “O meu sonho é tocar com 50 aspiradores na orquestra sinfónica de Berlim” (este até é relativamente normal, tendo em conta a profissão do senhor)

- “Um dia esqueci-me da minha namorada num caixote do lixo”.
Como? João Oliveira estava a passear com a companheira quando, a meio de uma “conversa de namorados”, viu um caixote do lixo que o deixou louco. Correu para lá. Observou, remexeu, explorou. Não sei durante quanto tempo é que esteve alheado do mundo, mas João Oliveira conta que a certa altura desceu à terra e pensou “espera lá, eu estava acompanhado”. Entretanto, a namorada (naturalmente) já tinha desaparecido.

- “A minha inspiração vem também muito do dióspiro. Gosto muito de dióspiros”.
Esta é a minha preferida. João Oliveira é um homem que usa um chapéu estranho, recolhe lixo, passa o dia enfiado numa cacofonia tremenda à procura de qualquer coisa que faça sentido e, para conjugar o som de parafusos e aspiradores, inspira-se em… dióspiros. E diz isto com a maior calma e seriedade do mundo, como se houvesse uma relação óbvia entre o dióspiro e uma sinfonia de torneiras a chiar. Eu – apesar de até achar piada ao trabalho desenvolvido por João Oliveira – não pude conter o riso.

Em suma: não sei onde se vende (ou sequer se está à venda em algum lado) o documentário “Lapsus Sonorus”. Mas, se tiverem oportunidade, dêem uma espreitadela, quanto mais não seja pelo caricato da coisa. Há por aí gente muito estranha. E há gente estranha que até faz umas coisas engraçadas. Aqui, podem conhecer a personagem João Oliveira e alguns dos seus projectos.

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