quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Sra. Saudade

M. lutava todos os dias contra as garras do passado. Esperneava, gritava, tentava escapar às recordações que a prendiam e não a deixavam seguir para o futuro. Em vão. A Sra. Saudade era mais forte que ela. M. era franzina, enquanto a Sr. Saudade apresentava a forma física de quem faz trinta e nove piscinas de mariposa logo pela manhã. Mas o poder da Sra. Saudade estava, sobretudo, na sua força psicológica. Ela sabia como deixar M. quedada, incapaz de apreciar o presente e disposta a odiar o futuro estupidamente vazio de sentido que estava para vir. Sem avisar, a Sra. Saudade atirava lembranças felizes contra M., que não tinha tempo de se desviar. Às vezes, M. sofria autênticos bombardeios de memórias. E as feridas acumulavam-se, tornando o já frágil corpo de M. cada vez mais vulnerável. As dores eram lancinantes, no entanto M. não chorava. Não porque conseguisse resistir à tentação, mas porque o seu saco lacrimal há muito tinha secado para sempre.
M. lembra ainda todos os pormenores do dia em que deixou de ser avassaladoramente feliz. Na altura, sentou-se no chão do corredor e chorou (tudo), abraçada aos caixotes das recordações. Foi a partir dessa data (parece ontem e afinal já foi há tanto tempo, reflecte M.) que a Sra. Saudade começou a infiltrar-se em todos os seus sonos, distracções, devaneios e pensamentos vagos, transformando tudo num sonho infinitamente triste.

1 comentário:

MS disse...

Tive a impressão de me estar a ver ao espelho ao ler o teu post...

Só impressão, com certeza. Até porque o meu saco lacrimal continua aqui prás curvas...

Beijo. Adoro-te